quinta-feira, 19 de maio de 2011

Cidade como corpo

Após horas trabalhando em prol da sobrevivência tanto de seu corpo, quanto do corpo urbano, os braços não querem mais vender bonés, entregar panfletos, fazer lanches, assinar documentos ou contar dinheiro. A cidade está cansada, e por suas pernas, milhares de corações pulsam ansiosos pelo descanso. Cansados do intenso pulsar do coração urbano, todos quase ao mesmo tempo, se aglomeram nas pernas, tendo como destino os membros periféricos. A cabeça muitas vezes tem fome, fome de novos sons cheiros e sabores, e busca saciar-se nas artimanhas fabricadas por cabeças alheias. A cabeça desse grande corpo nem sempre pode ser governada, mas, infelizmente os meios para se chegar a ela sim. Porém, mesmo depois das seis, enquanto houver corações a cidade não para de pulsar, de crescer, de aprender, evoluir, ouvir a si mesma, buscar soluções ou simplesmente ser.

A menina que jogava bola

Nas tardes de sábado o suor já invadia sua testa,

Chuteira rasgada, e a unha sangrava

Sua mãe, brava, lhe chamava para o banho

-Calma mãe só mais um gol e eu ganho!

É estranho para os vizinhos que olham

A menina gostar tanto de bola.

Mas menina e bola formam par perfeito

Menos quando chão vai contra o dedo

Ai menina chorava, e a mãe gritava

-Vamos! Pinte a unha e varra a casa!

A mãe não se agradava, pois a menina não mais dançava,

Só chutava

O pai de tão nervoso

Furou a bola com o osso

Que arrancou do cachorro que dera a filha no natal

O irmão nem se importava,

A menina lhe era motivo de piada

Principalmente quando ela se arrastava

E no bumbum o short furava.

A menina não entendia

O que errado fazia

A menina não queria mudar seu penteado,

Nem comprar um novo calçado

Ela queria uma bola, ela queria um gramado

Tudo era tão bonito em seus sonhos

Mas a mãe os destruía

Ela não a entendia, nem ouvia

Era quase uma “bolafobia”

A menina chorava

A mãe se exaltava
-O que te falta?Comida?Casa?

A menina não sabia o que lhe faltava,

E também porque a mãe tanto se irritava,

Mas como não queria apanhar abaixava a cabeça,

E quando a ira de sua mãe abaixava,

Sorria e via

Uma nova tarde para jogar...